Caros,
Depois de quase um mês sem anotar por aqui, retorno.
Enquanto uns comemoram e dão os vivas, outros praguejam. Bem, as coisas como são. Jamais poderemos agradar a todos. E isso, diga-se de passagem, é uma das maiores bênçãos dos céus, estes azuis com esparsas manchas imaculadas, que de lá de cima, pregados, nos cobrem as cabeças. De cá, de baixo, somente os tememos.
Bem, desde a última quarta, 29 de abril, certos ventos mudaram para mim. E de forma repentina. Não digo que inesperada, mas repentina. Isto é, se podemos diferenciar um termo do outro. O fato é que a tal mudança dos ventos era prevista por mim, mas não para tão logo. Não nego que eu esteja por demais prolixo e obscuro. Estes dois termos também, diga-se, confundem-se e nem bem sei se os emprego corretamente. Se a análise for feita com base em meu passado, falho.
Enfim, creio que a breve seção de auto-depreciação já basta. Encerro-a aqui. Contudo, a prolixa e obscura escrita segue. Voltemos à quarta-feira.
Após uma terça-feira rara em companhia da pessoa responsável pela brusca e inesperada mudança dos meus ventos, a quarta-feira chegou com uma raridade ainda maior. Isto é, se é que a histórica terça poderá ser alguma vez igualada ou superada. Sinceramente, espero que esse dia chegue.
À quarta (Como me perco).
Na quarta-feira de Comunicação Integrada, não permanecemos mais do que quinze ou vinte minutos no aconchego da sala de instruções. Entregamos os relatórios do dia e nos fomos. Ao agrupar-me aqui, refiro-me a J.J., C.J. e C. Esta última é a responsável pelos fenômenos climáticos aos quais me referi há pouco.
Dirigimo-nos ao estabelecimento H. Por lá, vibramos com suaves doses de H., para os senhores, e de S., para a senhorita. Planejávamos perdurar por ali até por volta das nove e trinta, quando dirigir-nos-íamos para o F. Entretanto, o elevado índice de habitantes por metro quadrado e os custos abusivos deste último obrigaram-nos a rumar para o B. da E., próximo à estação S. de metrô. Nesta ocasião, J.J. já nos deixara.
Vagamente, lembro-me que não foram necessários mais do que alguns poucos minutos de estadia no B. da E. para que C. desabasse. Inexperiente, esta sucumbiu aos poderes maléficos de S.
Prestativo, abandonei minha missão, que havia previamente arquitetado em pareceria com C.J., e investi meus esforços na recuperação de C. Suas injúrias, contudo, eram por demais intermináveis. Se não me falha a torpe memória, C. trancafiou-se na latrina por mais de quatro vezes, em menos de sessenta minutos. Enquanto isso, no campo de batalha, C.J. engalfinhava-se com qualquer H. que lhe cruzasse o caminho.
Cá com meus botões, tencionava abandonar o B. da E., no máximo, até aos quinze minutos passados das onze horas. Segundo meus cálculos, esse era o tempo suficiente para assegurar a chegada de C. à sua base e a minha à minha. Todavia, as injúrias de C. não nos permitiram a façanha do tempo.
Não exatamente às doze e dezesseis, C. e eu alcançávamos a entrada de sua base. C. ainda lesionada, mas lúcida, propôs-me uma oferta de abrigo, tendo em vista que o retorno para minha base já se impossibilitara, dado o avanço das horas. Apesar de inicialmente resistente à ideia, e após contatar a placa-mãe de minha atual base, quedei, aceitando a proposta.
Antes de C. e eu ainda nos encaminharmos para a cápsula transportadora, que nos levaria ao nível da célula habitada por C., ideiamos por horas a fio. O programa mostrou-se por demais interessante.
Ao invadirmos a célula de habitação de C., fomos sumariamente abordados por M., a residente. Esta, generosa, ofereceu-me mais do que aquilo que podia aceitar. Polido, recusei-lhe a proposta de me submeter a uma lavagem. Que, diga-se de passagem, viria em boa hora.
Após a obrigatória lavagem de C., reservamo-nos a conversar durante quase todo o tempo restante do qual dispúnhamos. Confessei-lhe dados. Tal ato custou-nos a individualidade. Em instantes, uníamo-nos, formando um só.
O fato povoa-nos a memória até então.